terça-feira, 19 de outubro de 2010

Camilo Pessanha - Caminho




Caminho


I


Tenho sonhos cruéis; n'alma doente

Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro

Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,

Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:

Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque só é madrugada quando chora.


II



Encontraste-me um dia no caminho

Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a joranda é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, hámuito espinho!

Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.

Corta os pés com a rocha dum calvário,
E queima como a areia!...Foi no entanto

Que chorávamos a dor de cada um...

E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.


III



Fez-nos bem, muito bem, esta demora:

Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,

Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!...Eu vou sozinho,

Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixa-me chorar mais e beber mais,

Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar - encher a alma.



Camilo Pessanha

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